PALAVRAS DA DIREÇÃO


Ao encenar o texto de Gabriel Calderón parti de uma idéia simples: a tragédia que se abate sobre a família da história se transforma em espetáculo. Essa tensão muito atual entre intimidade doméstica e espetacularização da violência familiar disparou o processo criativo.

A partir dessa visão minha proposta para a montagem brasileira foi reler os formatos populares de entretenimento em uma encenação contemporânea, de gênero híbrido, na qual os limites entre o drama e a comédia se tornassem fugidios.

Na adaptação do texto decidimos manter o nome original em espanhol enfatizando esse universo latino, de paixões exaltadas e cores fortes. Imaginei uma família meio uruguaia meio brasileira, do tipo que fala dois idiomas e é bem comum no sul do Brasil. Alguns personagens então mantiveram pequenos textos em espanhol (um dos atores é mesmo uruguaio), e as canções da trilha são hispânicas. Alguns poucos cortes no texto original abriram espaço para passagens criadas pela equipe brasileira a partir de improvisações.

Li o texto de Calderón como o roteiro de um show de variedades hilário, mas também perverso e surpreendente. Então eu e a equipe buscamos uma linguagem através da qual essa idéia se manifestasse, adquirisse uma forma e se comunicasse de maneira simples com os sentidos da platéia.

A Cenografia de Marcelo Nuernberg Schroeder compõe uma fronteira entre o privado, representado pela sala de estar clássica, e o público, com a cortina de cabaré vermelha e o pedestal com o microfone. A combinação desses elementos confere ao espaço da representação um caráter dúbio: doméstico, mas ao mesmo tempo espetacular e sensual. O vermelho enfatiza o caráter apaixonado, latino e melodramático da história.

Em conjunto com a Iluminação de Daniel Olivetto e de acordo com as necessidades do texto, o espaço adquire funções dramáticas diversas: ambiente de intimidade ou palco de um show de variedades, ou ainda um espaço híbrido, síntese desses dois lugares. A iluminação procura relacionar-se com essa idéia, valorizando o privado das tragédias familiares, ou expondo os personagens na condição patética de atração pública.

A Direção de Arte (figurinos, objetos e adereços) remete aos anos 70, à infância e adolescência dos atores. Loli Menezes encontrou nas vestimentas de brechó e nos tons contrastantes uma unidade plástica e estilística. As caracterizações sintetizam referências: El Presentador usa smoking e brilhos, um cantor de boate, meio Cauby meio Club Silêncio, do filme Mulholland Drive, de Lynch; o visual de La Madre foi inspirado em Mina Mazzini, diva da música italiana; El Padre veste-se como um executivo de classe média, com seu traje risca de giz; El Tío parece moderno e inteligente, de camisa psicodélica e óculos grossos; La Nena saiu de Cría Cuervos, de Saura, enquanto La Huerfanita saiu de Casanova, de Fellini.

A Música do espetáculo constrói o universo de paixão latina, recorrendo às canções populares do cancioneiro hispânico, em arranjos diversos criados por Javier Venegas. A música se relaciona ora com o caráter espetacular da cena, na grandiloqüência dos números musicais, ora com o que se passa dentro dos personagens, como na cena em que o rádio-gravador toca uma canção de amor.

A formação do Elenco levou em consideração as características físicas dos personagens, mas não se prendeu a isso, tentando antes organizar um conjunto de atores diverso, no qual cada elemento aportasse ao projeto suas habilidades, seu jogo e seu estilo de atuação.

Não busquei uma unidade formal nas interpretações, ao contrário procurei enfatizar o estilo próprio de cada ator, incentivando uma leitura pessoal do personagem. Mas procurei não perder de vista certa coerência interna na criação das ações que estabelecesse uma linguagem orgânica ao conjunto a partir das leituras, improvisos e marcações de cena.

Propus ao elenco um jogo complexo, fronteiriço, nos limites entre o dramático e o cômico, entre a farsa e a tragédia. Os atores, todos profissionais com domínio de suas ferramentas técnicas, criaram ações e investigaram transições que enfatizam as dualidades de seus personagens e dos pontos de vista sobre eles. O trabalho da direção sobre o elenco foi o de organizador de suas contribuições criativas no âmbito da cena. 

Todos os profissionais envolvidos, artistas e técnicos, foram organizados e gerenciados pela Produção de Renato Cristofoletti, que se preocupou em somar os diversos talentos com senso prático e sensibilidade, produzindo um espetáculo de acabamento sofisticado e grande impacto sobre a platéia.

Renato Turnes